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Afeto e consciência
Fátima Ferreira |
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Indiscutível a necessidade de exercitarmos o afeto, estimulando a aproximação das pessoas, de modo a vitalizar as relações para semear amor verdadeiro.
A cultura do descartável é indício do império do egoísmo, por desconsiderar o mundo íntimo do outro, incompatível com o processo de humanização. A possibilidade, porém, de pautar nossa conduta, considerando as implicações do nosso poder de influenciar o mundo sensorial e afetivo do outro, poderão, e muito, nos poupar dissabores futuros. Saber identificar os próprios sentimentos é cuidar-se. Dar a conhecer ao outro, as nossas reais intenções, é cuidar do afeto.
Ainda outra dia, em uma mensagem veiculada na Internet, alguém na madura idade nos chamava a atenção para os cuidados em torno das aproximações afetivas, que com freqüência, tem descambado para o descartável.
O autor, saudosista, lembrava os tempos em que, salvo exceções, havia uma graduação nas aproximações: dos olhares aos cumprimentos, uma ponte, cuja travessia tanto mais lenta, mais emoção trazia á conquista.
Na magia da dança a dois, a proximidade do corpo a coordenar os passos, e aos saltos, corações em busca do compasso. No balanço da dança, mergulho no olhar, a leitura silenciosa das almas, a tecer promessas, responsabilizar-se por elas...
Tais enlevos nem sempre eram prenúncio de finais felizes, mas ensejavam a oportunidade da floração dos sentimentos. Os costumes só com o tempo transformam... E felizmente não há demarcações violentas, de tal modo que ainda hoje, muitos são os que preservam e recriam os hábitos que encantam a alma, adubam a sensibilidade para germinar valores.
As experiências da vida, por si só, são fontes de riqueza para o carreiro evolutivo do ser, antes de se configurar como boas ou más, já que os conceitos de certo e errado, também se alteram á medida que modifica a valoração e o esforço de acessar o mundo da verdade. Valores, entretanto, precisam ser preservados, substituídos sim, mas não desprezados.
Ainda adolescente, me encantei com o pensamento de Exupery, em sua obra O Pequeno Príncipe. De modo especial guardei a alertiva do “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.
Percebo que muitas são as pessoas que se especializam na arte de cativar, entretanto, verifico com cuidado que grande é o número dos que desta arte, exploram o lado poético e da lisonja, que massageia o ego.
De lá pra cá, muitas vezes acertei nas escolhas, outras tantas, me equivoquei, mas em todas elas, ainda hoje, mais cedo ou mais tarde, da consciência ecoa o apelo de que cativar é responsabilizar-se, exigindo reparos, quando não observadas as precauções.
Ter consciência das próprias necessidades de crescimento é antes de tudo, estar no esforço pela auto-transformação, saber responsabilizar-se pelas intenções e ações, já que, queiramos ou não, elas nos vinculam ao outro e ao todo, retornando a nós e ao meio.
Longe dos discursos moralistas, por vezes hipócritas, que mais atendem a questões exteriores, o que nos compete é ter consciência das nossas escolhas, que enquadradas ou não, no senso comum, delas resultam conseqüências.
Viver é antes de tudo, experienciar, por conseqüência, errar e acertar. Viver com liberdade, entretanto, é medir o alcance dos nossos passos, antes mesmo de darmos o primeiro.